About The Blues!
09.02.2011
A História do Piano no Blues (Gustavo Pezzi -Caxias do Sul)
Dentre os instrumentos que foram adotados pelo blues, a história do piano é, de longe, a mais extensa e a que mais engloba diferentes estilos durante o seu percurso. Tentar contar a história deste instrumento é o mesmo que tentar contar a história da própria música desde 1500 até a atualidade. Um móvel desajeitado de madeira com geralmente sete ou oito oitavas de teclas pretas e brancas, martelos e cordas vibrando, pode-se dizer que o piano possui uma mecânica de produção de som relativamente simples. Porém, a força por trás do piano muito se deve à capacidade que ele proporcionou aos músicos de tocar diversas linhas melódicas ao mesmo tempo utilizando ambas as mãos, além de poder executar acordes e, portanto, explorar melhor os elementos harmônicos presentes nas músicas. Isto gerou um reconhecimento e um status de grande importância dentro da comunidade erudita, fazendo com que o piano fosse adotado pelos compositores clássicos como o principal instrumento para o arranjo e execução de músicas solo. Porém, dentro da variedade de estilos nos quais o piano foi utilizado no século passado, podemos notar que foi com o blues e com o seu filho jazz que o instrumento deu um salto de criatividade e conseguiu melhor explorar seu poder de criação e pressão. A história do piano no blues anda de mãos dadas com a história do piano no jazz, mas vamos tentar dividir os principais pontos entre um e outro para compreendermos melhor esta transição que começou no início do século XX e que mudou para sempre a maneira como encaramos este instrumento. Como mencionado, o piano sempre foi um ícone da cultura erudita européia, e poucas eram as famílias americanas que possuíam um piano em casa. E o repertório que se ouvia não fugia muito longe dos standards da música clássica. Porém, um outro universo cultural estava começando a emergir. A cultura negra estava começando a dar suas caras e a introdução do piano neste novo mundo se deve muito à utilização dele como o instrumento chave dentro de bares e bordéis (fazendo com que o contato dos negros com o instrumento crescesse mais e mais). Outro fator que contribuiu também foi que, os pianos que antes pertenciam à classe média e alta começavam a perder a capacidade de afinação e eram muitas vezes doados ou até mesmo abandonados. Temos diversos exemplos de músicos que aprenderam a tocar estudando em pianos estragados que haviam sido abandonados. Professor Longhair, um ícone do piano blues, mencionou em uma entrevista que um dos primeiros pianos que ele tocou tinha a muitas de suas teclas quebradas e que esta dificuldade fez com que ele dominasse a técnica de inversão de acordes no piano como nenhum outro artista em New Orleans. Podemos notar até hoje nas gravações de blues este timbre mais metálico e desafinado dos pianos. Tanto que, ao ouvir este timbre já lembramos da imagem de um saloon do sul/sudoeste onde os pianistas gritavam seus lamentos e martelavam um velho piano em meio a uma nuvem de fumaça e barulho de trabalhadores braçais de barragens, construtores de estrada de ferro e outros vários detalhes clichês da época. É difícil ouvir um som com esse timbre e pensar em um pianista vestido com smokin e gravata borboleta deslizando seus dedos graciosamente por um teclado reluzente. É junto com esse tipo de história que um timbre consegue criar algo muito importante para a sua sobrevivência. Geralmente chamamos isso de identidade sonora. Os poucos livros que temos sobre o assunto apontam dois estilos básicos que iniciaram a revolução do piano no blues. Um mais sofisticado e outro extremamente primitivo. O primeiro é o ragtime, que surgiu da busca pela evolução musical dos instrumentistas negros e que veio ao encontro do que seria a origem do piano no jazz. E o segundo, como mencionado, era uma forma mais crua e primitiva de piano, o boogie woogie. Geralmente as peças de boogie woogie possuem um andamento rápido, cheio de energia e uma clara intenção dançante. Enquando o músico utiliza a mão esquerda para executar um padrão repetitivo ostinatto da linha de baixo, a mão direita se encarrega da melodia principal. Os nomes mais lembrados do estilo são Albert Ammons e Meade Lux Lewis. Como uma resposta a esta levada dançante do boogie woogie começamos a notar um estilo de piano mais lento, com uma aura mais urbana, acompanhado por uma conjunto (geralmente baixo, bateria, harmônica e guitarra), mas que mesmo assim ainda possuía um ar mais primitivo. Antes de continuarmos, entendam aqui que o termo ‘primitivo’ não significa simplicidade de execução, mas sim, pureza. Atingir da forma mais direta possível o objetivo do músico. Os pianistas deste estilo não possuíam grande técnica, usavam muita dissonância e não se utilizavam de noções musicais muito complexas, o que poderia comprometer o objetivo principal que era somente expressar o seu lamento da forma mais crua e direta possível. O termo ‘primitivo’ aqui defende expressar o que o músico deseja, sem enrolação, da maneira que ele mesmo se educou e, principalmente, da maneira mais pura possível. Dessa linha de músicos urbanos os nomes que não podemos deixar de mencionar são: Roosevelt Sykes, Sunnyland Slim, Ray Charles, Lerroy Carr, Pinetop Smith e Pinetop Perkins. Também podemos citar dois gigantes de New Orleans como Professor Longhair e Dr.John. E do círculo do blues de Kansas City, o pianista Jay McShann. Existe também a velha turma de Chicago que segue a clássica história da transição dos campos de plantação para a grande cidade em busca de emprego no período pós-guerra. Essa transição fez de Chicago o hotspot do blues nos anos 40 e 50, e dois dos grandes nomes que contribuíram para a cena do blues na cidade foram Memphis Slim e Otis Spann. Em especial Otis Spann, que foi sem dúvida um dos maiores nomes do piano no blues de todos os tempos. É muito lembrado como sendo o braço direito da lenda Muddy Waters na gravadora Chess e também possui alguns discos lançados em carreira solo. Infelizmente, Otis Spann morreu em 1970 com 40 anos de idade e não pode se estabelecer como a grande lenda do blues que merecia. Um importante material que conta um pouco da história destes grandes pianistas é o documentário Piano Blues, de Martin Scorsese e dirigido por Clint Eastwood. A obra inclui entrevistas com Ray Charles, Jay McShann, Dr.John, etc. E como não poderia deixar de mencionar, em paralelo a tudo isso temos a história do piano no jazz que se modificou do já mencionado ragtime e incorporou complexidades musicais e a malandragem urbana da cultura afro-americana. A história do piano no jazz é um enorme capítulo da música do século XX e aconselho a todos que desejam entender mais deste grande instrumento a procurar artistas como Count Basie, Duke Ellington, Thelonius Monk, Gene Harris, Oscar Peterson e Red Garland. Por fim, não é difícil notar que qualquer tentativa de abraçar todas as ramificações da história do piano no blues é uma tarefa com fim distante. E como toda a bibliografia que se propõe a abrir a história do blues, iríamos acabar por abrir a história completa da evolução social e humana do século XX. Mas tirando a filosofia histórica de lado, o mais importante foi que, um pedaço grande e desajeitado de madeira, teclas, martelos e algumas cordas desafinadas conseguiram derrotar preconceitos de um século inteiro e, principalmente, ainda conseguem transmitir da forma mais crua e direta possível o sentimento mais forte até hoje conhecido pelo homem: o blues.
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Um Pouco de História da Harmônica (Andy Boy/ Porto Alegre - RS)
A Guitarra Blues (Fábio Henrique Posenatto - Caxias do Sul / RS)
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